Biomecânica aplicada a corrida



Ao mesmo tempo que a Corrida de Rua cresce no Brasil e no mundo e afasta as pessoas do sedentarismo ajudando a diminuir os índices de doenças cardio-metabólicas (maior causa morte do mundo), a proporção de lesões na corrida também cresce, mesmo com toda a evolução tecnológica que cerca a modalidade (tênis, GPS´s e Softwares de treinamento).

Nesse contexto, além da biomecânica da corrida ser vista como um dos fatores relacionados à melhora do desempenho, principalmente pela economia de movimento, alguns padrões biomecânicos têm sido estudados e apontados como relevantes em relação às lesões na corrida (MILNER, 2006; van der Worp et al., 2016). Tanto no sentido de profilaxia e tratamento, quanto como gatilhos ou mecanismos de lesão.

Durante a corrida temos a fase de apoio (aterrissagem e propulsão) e a fase aérea (balanço). Segundo Vaughan (1984), a fase de apoio na caminhada corresponde a 60% do ciclo da marcha, enquanto numa corrida de alta velocidade essa mesma fase corresponde à 20%.

A velocidade da corrida sofre interferência, principalmente de dois fatores: amplitude dos passos e frequência de passos, que aumentam à medida que a velocidade aumenta. Porém isso ocorre linearmente até aproximadamente 21 km/hr, onde a partir daí a frequência de passos passa a contribuir em maior escala para o aumento da velocidade enquanto a amplitude se mantém ou pode até diminuir (FUKUCHI & DUARTE, 2016).

A frequência de passos é conhecida no âmbito da corrida e entre os pesquisadores como CADÊNCIA, e é contabilizada pelo número de passos por minuto, que pode ser contada manualmente ou demarcada em muitos relógios e GPS´s dos corredores hoje em dia. Diversos estudos associam o aumento da cadência à redução dos índices de taxa de carga vertical (pico de impacto, pico ativo, taxa de carregamento, etc), que por sua vez têm relação direta com o impacto gerado durante a corrida e consequentemente na sua redução (HOBARA et al., 2012; HEIDERSCHEIT et al., 2011; LENHART et al., 2013).

Outro ponto amplamente estudado e discutido ante as análises cinemáticas da corrida, é a questão do deslocamento do centro de gravidade e/ou sua relação com a distância do ponto de aterrissagem durante a corrida (WILLE et al., 2014). Esses dois parâmetros estão respectivamente relacionados à oscilação vertical e amplitude/frequência dos passos e, novamente aos parâmetros relacionados ao impacto na corrida, uma vez que uma oscilação vertical muito evidente pode refletir no aumento das taxas de carregamento durante a fase de apoio e a aterrissagem muito à frente do centro de gravidade potencializa ainda mais essas valências. Reiteramos que a grande maioria dos relógios e GPS´s de corrida hoje em dia, além de análises bidimensionais com equipamentos simples e câmeras de celulares, podem trazer bons indícios destas métricas à saúde e ao desempenho do corredor, desde que manipuladas por um profissional experiente e capacitado.

Para fechar essa discussão que tange aos aspectos biomecânicos da corrida, principalmente vinculados à parâmetros tecnológicos de medidas, costumo dizer que tão incoerente quanto querer atribuir números e valores mágicos à cadência, oscilação vertical, tempo de contato com o solo, ângulos articulares e “tipos” de “pisadas” ou aterrissagens, é também negligenciar a oportunidade de coletar, analisar e discutir estes dados em prol da saúde e da performance do nosso aluno, trazendo a tecnologia e a ciência à nosso favor.

Bons treinos e um grande abraço!

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